Tendência, ou uma pausa para respirar?

Publicado em fevereiro/2025

No mês de janeiro, chamou a atenção a acentuada desvalorização do Dólar frente ao Real, -5,8%, revertendo parcialmente a forte alta de 27,9% da moeda americana em 2024, principalmente ao final do ano, quando o câmbio chegou a ser negociado a 6,29 reais/dólar, no dia 17/12, e fechou o ano cotado a 6,19.

Foram tanto uma das altas mais rápidas, como uma das quedas mais rápidas em muitos anos, confirmando a extrema volatilidade da moeda brasileira.

O Real é a moeda que mais se valoriza em 2025, mas, por outro lado, também foi a que mais desvalorizou em 2024.

O Brasil teve um fluxo cambial bastante negativo em dezembro/24, com saída de 26,7 bilhões de dólares pela conta financeira, o que explica a desvalorização do Real ao final daquele ano. Depois disso, alguns fatores contribuíram para o alívio cambial do início do ano, como a volta do investidor estrangeiro na bolsa brasileira, com a entrada de R$ 3, 1 bilhões em janeiro, o atrativo diferencial de juros proporcionado pela volta de altíssimas taxas de juros reais e alguma descompressão de prêmios de risco.

Apesar da melhora verificada em janeiro, em função da persistência das incertezas econômicas, tanto no âmbito interno quanto no internacional, é possível que venhamos a testemunhar muita volatilidade no câmbio ao longo do ano.

Na seara da inflação e dos juros, o cenário segue desafiador, com o aumento das expectativas de inflação, que chegaram a 5,5% em 2025. Como amplamente esperado, o Banco Central entregou mais um aumento de 1% na taxa Selic, mantendo o guidance de outro aumento de igual magnitude em março e, a partir de então, não assumiu nenhum compromisso com a direção da política monetária. De qualquer forma, o mercado ainda espera novos aumentos dos juros para depois de março, levando de volta os níveis de juro real a patamares extremamente restritivos.

A inflação brasileira, representada pelo IPCA, terminou o ano de 2024 em 4,83%. O número em si não é nada fora da curva considerando o histórico do Brasil. Por outro lado, a meta do Banco Central Brasileiro era de uma inflação de 3,00%, com um teto em 4,5%. Nesse sentido, o índice apresentado significa que a política monetária não cumpriu o seu papel no ano passado.

Os componentes da inflação

Para além de números abstratos e metas teóricas, a inflação do ano passado foi muito marcada pela elevação de preços em alguns itens específicos, porém muito populares.
Podemos dar o exemplo, do preço do azeite, da picanha, do café e das passagens aéreas.

Variações de preço muito acima do resultado do IPCA em itens muito populares, que são objeto no consumo do dia a dia, geram surpresa e descontentamento no público em geral. Até mesmo questionamentos quanto ao número da inflação ser real.

Por exemplo, podemos abrir as tabelas do IBGE por itens específicos e vamos ver que a picanha variou 8,74% e tem um peso de 0,04% no índice, por outro lado, o peixe variou 0,04% e tem o mesmo peso no índice.

Apesar do brasileiro gostar muito de picanha e o alimento ser usado até em discurso político, a contribuição da alta de seu preço para o índice geral é irrelevante. Mesmo o café moído, que apresentou uma alta de impressionantes 40%, contribuiu com apenas 0,20% do resultado de 4,83%. 

Na prática o que acontece é que o IPCA é um índice disperso, utilizado para tentar capturar um aumento generalizado de preços, por isso o aumento do seu café não define a inflação, pelo menos não no conceito técnico.

Preços e receitas

De qualquer forma, sendo 10% ou 5% ao ano de inflação o seu capital precisa estar protegido da perda do poder de consumo. A boa notícia, que os contadores já conhecem, é que todo balanço tem que fechar.

Cada despesa é uma receita, a sua conta de supermercado é a receita do supermercado, o custo do supermercado é a receita dos produtores, e assim a economia segue de forma quase circular.

Quem está protegido da inflação?

Assim, quem está protegido da inflação é quem produz os bens e serviços que são desejos ou necessidades de consumo da população. Dentro da nossa organização social, os principais favorecidos são as empresas líderes em seus setores, que podem repassar preços e ver suas receitas e lucros subindo ano a ano.

O impacto nos investimentos

Talvez o preço do café não impacte em nada no negócio do Itaú (aqui vale conferir quanta tarifa é necessária para pagar um cafezinho) mas, em uma economia de mercados interligados, os efeitos dos aumentos de preços são transmitidos para vários setores diferentes e as boas empresas aproveitarão a oportunidade para crescer ainda mais os seus lucros.

Ressalvas

Como de costume, não é nosso objetivo dar nenhuma discussão como encerrada, fique à vontade para entrar em contato e elaborarmos mais profundamente os assuntos abordados.

O Ibovespa subiu 4,9% no mês, o dólar desvalorizou -5,8% e a curva de juros recuou, principalmente, nos vértices mais longos, provocando a valorização dos papéis de renda fixa. Na contramão, o IFIX, índice de fundos imobiliários, caiu -3,1% em função de ruídos relacionados à cobrança do IVA a partir da reforma tributária do consumo.