Mesmas premissas, diferentes resultados

Publicado em outubro/2025

No Brasil, o debate sobre investimentos costuma andar em coro. Ontem o mantra era IPCA+6; hoje é CDI; amanhã, veremos… Por enquanto, seguimos nesse mercado monotemático. Falta espaço e apetite para o contraditório, e isso empobrece as decisões de investimento.

Por outro lado, quem se atreve a buscar inovação fora das nossas fronteiras encontra muita ambivalência e debates produtivos, teses, antíteses e sínteses são algo comum no universo dos analistas econômicos e financeiros do exterior. É com essa cabeça aberta que propomos avaliar se, daqui a 20 anos, a taxa de juros de equilíbrio será mais alta ou mais baixa do que hoje.

Ao tocar no tema, apresentamos no relatório do mês passado (texto aqui), a leitura hoje dominante de que o envelhecimento demográfico tenderia a baixar juros no longo prazo: pessoas mais idosas, pirâmide etária invertida, maior expectativa de vida, mais poupança, portanto, dinheiro mais barato.

A ‘ressaca’ da poupança

Um pensamento de segunda ordem sobre o tema pode sugerir algo diferente. Realmente, durante a fase de construção patrimonial, grande parte das pessoas irá poupar mais recursos, porém, depois vem a ressaca. As mesmas pessoas que fizeram um esforço patrimonial durante a fase economicamente ativa, irão despolpar seus recursos por mais tempo e, devido a própria demografia (mais aposentados que trabalhadores ativos), a retirada de recursos do sistema seria maior que a entrada.

Se hoje, portanto, a transição demográfica sustenta uma poupança maior, quando a pirâmide estiver de fato invertida poderá vir o efeito rebote. A taxa de poupança seguirá a máxima do mercado financeiro, ‘sobre no boato e realiza no fato’.

Menor força de trabalho (maior inflação de salários)

Analisando os efeitos de uma população mais envelhecida, começaremos (já começamos?) a ver uma grande escassez de mão de obra, não é novidade para ninguém que nos países desenvolvidos a prestação de serviços básicos é um luxo.

A cultura do ‘faça você mesmo’ não cresce por acidente.

Um aumento no nível de salários é um dos fatores mais relevantes para indução de inflação no futuro, inclusive, a curva de Phillips (que descreve a relação entre desemprego e inflação) trata apenas da inflação de salários.

Aqueles que já estão mais habituados à teoria econômica já conhecem a lógica indutiva, maiores salários > maior consumo > maiores preços (inflação) > maiores juros.

Problemas fiscais motivados por idade (SUS e INSS)

Como se não bastasse a redução da taxa de poupança e a inflação induzida por consumo, o envelhecimento da população também trará uma nova pressão sobre os gastos governamentais. No Brasil de hoje, metade do orçamento federal já é destinado ao pagamento das aposentadorias.

Além das aposentadorias, os gastos com saúde também devem aumentar. Em um país onde apenas 25% da população possui plano de saúde, a conta certamente ficará para o Estado brasileiro. Nos últimos 5 anos, temos observado a correlação positiva entre gastos públicos e juros.

Alterações geopolíticas após 2020

Como se não bastassem os efeitos de segunda ordem da alteração na demografia, a natureza (humana) resolveu jogar mais lenha na fogueira. Com o advento da pandemia, da guerra na Ucrânia e da reeleição de Trump, os países estão mais conservadores, mais protecionistas e mais preocupados com quem fazem negócios (Ex.: Europa parando de comprar gás russo).

Assim, se os últimos 30 anos foram de globalização, hoje se discute se os próximos 30 serão de protecionismo. Portanto, se o outsourcing a nível global foi um vento de cauda para a política monetária em direção a juros mais baixos, o onshoring deve ser um vento de proa.

Conclusão e ressalvas

Com uma menor taxa de poupança, inflação pressionada por salários, gastos do governo mais altos e políticas de Estado mais isolacionistas, os juros poderão ser estruturalmente mais altos daqui para a frente.

Seguimos abertos ao contraditório: produtividade acelerada (IA), reformas que melhorem a trajetória fiscal e um novo ciclo de abundância de poupança global podem reduzir a taxa neutra. Até lá, seguimos recomendando diversificação e exposição a múltiplas alavancas de retorno, combinando prazos/durações, indexadores e geografias.