Publicado em fevereiro/2026
Nos últimos três meses, os fóruns de investimentos estão operando à semelhança da Praça Sete, em BH, gritaria para tudo quanto é lado e algumas personalidades curiosas interessadas em comprar ouro.
O cenário de bazar persa tem a ver com a narrativa do debasement trade, que ganhou força no mercado desde meados do ano passado, e que significa basicamente a perda do valor das moedas fiduciárias (moedas nacionais mantidas por cada país), em função do complicado cenário fiscal na maior parte deles, com déficits fiscais e dívida pública crescentes.
Tal conjuntura diz respeito à todas as moedas, mas em especial ao dólar americano, considerado a reserva de valor mundial nas últimas 8 décadas. O movimento de diversificação de portfólios globalmente para fora dos EUA, relatado na seção anterior, e a supervalorização do ouro ao longo de 2025, tem tudo a ver com essa narrativa.
Para enriquecer esse debate, e não ficarmos limitados a mais uma narrativa de mercado, trouxemos as análises do último livro lançado por um dos investidores mais respeitados do nosso tempo, que trata de como costuma terminar o ciclo de endividamento excessivo de um país. O livro é uma sugestão de leitura feita por um de nossos clientes e casa bem com o momento que estamos vivendo.
How Countries Go Broke: The Big Cycle
How Countries Go Broke: The Big Cycle é o mais recente livro de Ray Dalio, investidor internacional de grande renome, uma referência no mundo dos investimentos. Recomendamos tanto a leitura do seu mais recente livro quanto pesquisar sobre sua história. Ray Dalio escreve e se comunica com a autoridade de quem já está há mais de 50 anos no mercado e passou por diversas crises, ciclos, bolhas e colapsos.
Países quebram como empresas e o Brasil entende disso melhor que ninguém
Países quebram como empresas e o Brasil entende disso melhor que ninguém. A distinção entre ciclo curto de crédito e grande ciclo de dívida é o coração do livro. No fim do ciclo longo, o país se parece muito com uma empresa insolvente: excesso de endividamento, serviço da dívida crescente e há uma incapacidade econômica e política de ajustar a situação.
A diferença é que países não entram em recuperação judicial. Eles escolhem entre default (calote) explícito ou desvalorização da moeda. E, do ponto de vista do investidor, a diferença é quase semântica.
Na análise de Dalio, os Estados Unidos estariam vivenciando a fase final de um grande ciclo de dívida, com déficits fiscais crescentes e dívida pública em ascensão, com implicações relevantes para o status do dólar enquanto reserva de valor mundial e para os títulos do governo americano, até então considerados o porto seguro das finanças globais. A situação é comparada com a fase final de grandes impérios, como o Britânico, o Holandês e o Espanhol. Na fase final, tudo ainda parece funcionar na superfície, mas a matemática já não fecha e a confiança começa a se deteriorar. Apesar de lento, o declínio é uma questão de tempo.
Dalio acerta em cheio ao dizer que, no fim do ciclo, títulos de dívida inevitavelmente perdem valor, seja por calote, seja por inflação. Essa discussão não é teórica, ela ecoa diretamente na experiência brasileira, inclusive em setores específicos, como o agro, onde o excesso de endividamento começa a mostrar sintomas clássicos de fim de ciclo. Ao final de 2025, já havia 493 empresas do setor em recuperação judicial.
Bonds, Moeda e os Amantes do CDI
“If you don’t like the currency, you shouldn’t like the bond. And if you don’t like the bond, you shouldn’t like the currency.”
Um dos trechos mais fortes do livro aparece quase como um comentário lateral. Mas é como um soco no estômago do investidor que diz não acreditar no Brasil, não acreditar no real, mas dorme tranquilo com seu CDB do bancão, às vezes até mesmo no Banco do Brasil.
Dalio deixa claro: moeda e bond são essencialmente o mesmo IOU (Sigla, em inglês, para I owe U, ‘eu devo você’ em uma tradução livre). Sejam títulos, seja papel moeda, quando o mercado perde apetite por promessas de pagamento futuras do governo, nenhuma política monetária recria confiança por decreto. Nesse ponto, a análise lembra muito o Brasil da hiperinflação: a moeda é só meio de troca, só segura dinheiro quem precisa gastá-lo em pouco tempo.
Armadilha da liquidez, corrida aos bancos e a ilusão do ‘dinheiro parado’
Em determinado estágio do colapso, Dalio descreve um cenário em que ninguém quer títulos, independentemente da taxa de juros. Isso é chamado de armadilha da liquidez em um livro texto de economia, mas também pode levar a algo mais primitivo: corrida aos bancos.
E aqui vale desmontar um mito que circula no mercado financeiro, não existe ‘dinheiro parado’. É comum ver análises que citam que os investidores estão muito carregados de ‘cash’ e, portanto, as bolsas globais ainda teriam muito espaço para subir.
Quem vende um título, seja uma ação, um bond, uma debênture, recebe dinheiro – outro tipo de IOU. Esse dinheiro, por sua vez, passa a estar ‘parado’. O papel moeda moderno nada mais é que o numerário oficial que deve ser utilizado para pagar impostos, dessa forma, o dinheiro só deixa de existir quando o governo arrecada mais do que gasta. Dessa forma, consome mais papel moeda do que emite (grosso modo). Todo o resto do tempo o dinheiro está apenas trocando de mãos.
Em uma economia a ponto de ruir, a velocidade de circulação desse dinheiro aumenta, quem recebe papel moeda vai logo despejá-lo em algum ativo. Imóveis, no Brasil, talvez sejam o melhor exemplo empírico disso. Não porque sempre foram bons investimentos, mas porque a demanda por dívida pública perdeu atratividade em determinados momentos da nossa história.
Quando o governo entra comprando títulos ou elevando juros, essa dança se inverte, e os ativos também sofrem. Algum de vocês tentou vender um apartamento nos últimos 3 anos?
Macroeconomia básica… ou seria microeconomia?
Em vários momentos, o que Dalio chama de ‘sustentável ou insustentável’ do ponto de vista macro é simplesmente microeconomia básica: só vale a pena investir se o retorno excede o custo da dívida e o custo de oportunidade.
Isso vale para empresas e vale para países. Um dos sintomas mais claros de algo prestes a quebrar é quando nova dívida serve apenas para pagar serviço da dívida antiga, e não para gerar retorno futuro. Aqui o livro brilha conceitualmente, mas também revela sua limitação prática.
Nós não somos um hedge fund
À medida que o livro avança, fica cada vez mais claro: esse é um manual de investidor macro. Dalio pensa em pacotes de ativos: Moedas, juros, commodities, duration, etc. Isso faz todo sentido para hedge funds. Para o investidor pessoa física, nem sempre.
Fazer uma transação casada, vender ouro e comprar Treasury, por exemplo, é uma arbitragem que exige estar certo nas duas pontas. É o tipo de retorno que podemos abrir mão tranquilamente. Ficamos felizes em não participar.
Usa de ferramenta com outro objetivo
Uma semelhança entre nós e Dalio é que ambos fazemos uso da caixa de ferramentas completa, o importante não é qual ferramenta você usa, mas resolver o problema apresentado.
Assim, a lógica de trabalhar processo de investimento e diversificação vale ouro. A frase mais honesta do livro é ‘He who lives by the crystal ball is destined to eat ground glass.’ É o reconhecimento de que tudo que está no livro é semi-certo. O valor está no conceito, não na certeza. O investidor que internalizar esse conceito estará melhor preparado.
Um excelente manual de macroeconomia, um livro para apresentar conceitos, não para dar respostas
Apesar de excelente em seus apontamentos históricos e abordagem conceitual, às vezes temos que discordar da sua aplicação prática. O livro é um excelente manual de macroeconomia, tem enorme utilidade para quem quiser entender o que é a política monetária e seus efeitos em cadeia na economia e política, bem como um ótimo livro de história econômica e um convite permanente à dúvida.
Não é um manual de investimentos, e nem se propõe a ser. Não é nesse livro (nem em lugar algum) que você vai achar “a próxima grande coisa” / ”the next big Thing”.
Não há sugestão de comprar ativos, há sugestão de cautela. Devemos tomar cuidado com títulos longos, cuidado com o preço dos ativos e mais cuidado ainda com narrativas confortáveis.
A conclusão é simples e conhecida (pelos leitores mais atentos): Não existe ativo seguro sem preço justo, nem país imune à matemática.
