A pergunta de um trilhão de dólares

Publicado em novembro/2025

O setor de inteligência artificial (IA) está em uma bolha? Essa é a pergunta de um milhão de dólares, quer dizer, um trilhão de dólares.

Resumo

Em outubro, o setor de pesquisas da Goldman Sachs conduziu uma série de entrevistas com especialista do mercado americano para entender se o mercado e, mais especificamente, as empresas relacionadas à inteligência artificial estão em uma bolha (texto aqui).

Contexto geral

Com o lançamento do ChatGPT e a difusão de tecnologias baseadas em IA, o mercado financeiro tem visto de maneira bastante otimista a perspectiva para o segmento, assim, empresas relacionadas ao tema têm sido recompensadas com forte valorização de suas ações. Mas esse movimento acelerado tem feito com que muitos agentes de mercado questionem se não estaríamos revivendo a bolha da internet do final dos anos 90.

Valuations e lucros

Apesar da enorme alta das ações de tecnologia, grande parte da atenção do mercado está em empresas gigantescas que estão com balanços saudáveis e utilizando o excesso de caixa para fomentar a nova tecnologia, a exemplo do que a META tentou realizar ao investir em realidade virtual.

O fato é que a maioria das ‘Magníficas 7’ gera caixa, paga dividendos e recompra ações. Dessa forma, o alto valor de CAPEX (Investimentos em capital) que essas empresas estão direcionando para infraestrutura de IA não parecer ser um problema existencial (ou de balanço).

A grande diferença para os anos 2000 é que, desta vez, quem lidera essa corrida está capitalizado e em busca de reforçar sua liderança tecnológica já existente. Hoje, o risco não é de insolvência, é de retorno sobre o capital investido (ROI).

Onde está o ROI

Apesar da capacidade de financiamento não ser um problema no curto prazo, a falta de retorno desses investimentos pode reduzir a rentabilidade dos negócios e tornar os investidores menos aderentes a financiar o atual ciclo de expansão.

O ciclo atual já prevê investimentos de mais de 4 trilhões de dólares, um valor sem precedentes. Entretanto, ainda não há clareza de como todo esse investimento se traduzirá em aumento de receita ou redução de custos.

Mas vale a ponderação de que há certa imprevisibilidade positiva na adoção de tecnologia, por exemplo, havia certo ceticismo quanto ao uso de redes e computadores desktop no início do ciclo de CAPEX realizado para a adoção da internet.

Hoje, porém, aqueles investimentos demonstraram-se mais que justificados, principalmente devido à alta de demanda de plataformas de streaming e, quem diria, da própria IA (aplicações não previstas nos anos 90). Smartphones também vêm nessa linha, são os ganhos tecnológicos imensuráveis a priori.

O processo IPA

Esse elevado nível de CAPEX, apesar de toda incerteza quanto ao futuro, tem origem em um processo natural da tecnologia, a progressão IPA, Infraestrutura, Plataforma e Aplicação. A ideia é que a nova tecnologia precisa que uma infraestrutura seja criada (Internet, por exemplo), então nascem as plataformas (computadores pessoais, smartphones) e aí finalmente aparecem as aplicações (redes sociais, streaming). A IA ainda está na etapa da infraestrutura, com grande parte do seu investimento voltado à construção de datacenters, ainda estamos nos anos 90 da inteligência artificial, com a aplicação mais difundida sendo um buscador online, o Chat GPT hoje é o maior concorrente do Google.

Qual é o modelo de negócio das empresas de IA?

As plataformas ainda são limitadas e as aplicações ainda muito voltadas para o consumidor final, como mencionado, a tecnologia mais popular é quase um buscador do Google com esteroides. As soluções para empresas ainda são muito primárias e pouco difundidas.

Esse estágio inicial de adoção da tecnologia é algo comum, a maioria dos ciclos de computação/tech foram iniciados com a adoção por consumidores. O Whatsapp, por exemplo, passou a ser usado por empresas muito depois da adoção pelo público geral. As pessoas físicas têm a liberdade de comprar o produto/serviço que mais gostam, sem depender de burocracias corporativas e orçamento empresarial. A adoção de IA nas empresas ainda está ‘presa’ no orçamento da área de TI.

O ecossistema da IA ainda não é sustentável. Em qualquer ambiente empresarial com lucro econômico, quando o consumidor final gasta um dólar no topo da cadeia, esse valor é ‘distribuído’ entre as diversas etapas do processo produtivo.

No atual modelo de negócios, para cada dólar gasto em IA, pelo consumidor final, só a NVDIA leva 1,20, ou seja, está claro que não há sustentabilidade econômica. Como não existe dinheiro suficiente entrando no topo da cadeia (por meio do consumo final da tecnologia), alguns players intermediários acabam pagando a conta, é o caso das Bigtechs, com seus massivos investimentos em data centers.

É uma bolha?

Nos dias de hoje, há muito mais preocupação com uma eventual Bolha do que nos anos 90. Pode ser até que haja uma bolha com os ativos ligados à IA, mas como comentamos anteriormente, as empresas estão capitalizadas e a tecnologia é promissora. Talvez valha um cuidado maior no mercado de Private Equity (texto aqui), onde algumas empresas são avaliadas em altíssimos múltiplos de receita.

Ainda que inovadoras, muitas empresas que contribuíram de forma significativa para evolução e adoção de novas tecnologias, acabaram ficando pelo caminho.  AOL, Blackberry e Nokia são exemplos clássicos, é difícil conhecer os vencedores no início, a história pode ser cruel com empresas pioneiras.

Assim, se a demanda pelo produto ao seu custo atual não é sustentável, até que ponto os grandes players vão aceitar bancar a festa?

Bancado por Equity ou por dívida

 Até pouco tempo, grande parte do investimento em IA vinha em forma de um negócio secundário das grandes companhias. Uma das preocupações mais recentes é o início de um ciclo de expansão via dívida, no qual as empresas começam a operar o crescimento em uma estrutura 80/20, 80% de dívida para 20% de capital.

O problema do financiamento via dívida é que a dívida exige que o fluxo de caixa se realize para viabilizar o projeto. O Facebook pode financiar seu MetaLabs (realidade virtual e IA) e não quebrar, pois tinha outras fontes de receita que sustentavam a operação. A Meta nunca deixou de ser geradora de caixa e nunca se endividou para bancar seu, até então, fracassado projeto de realidade virtual.

Dessa forma, uma métrica que deve ser olhada de perto é o crescimento do serviço das dívidas das empresas relacionadas à IA em relação às suas receitas.

A pergunta certa

Talvez, o questionamento sobre se a Inteligência artificial vai dar retornos seja a pergunta errada, a pergunta certa seria para quem IA vai gerar lucros? Assim como foi no ciclo de adoção da internet em larga escala, haverá vencedores e perdedores.

O impacto da IA na sua vida pode ser mais importante do que impacto no seu portfólio de investimentos. Existem estudos apontados na pesquisa da Goldmam Sachs que indicam que a IA poderia gerar um ganho de produtividade na casa de 30% nos próximos anos.

Produzir 30% a mais pode ser mais lucrativo para você do que ter ações NVIDIA no seu Portfólio.

Conclusão

Esqueça o pensamento dualista onde a IA é boa ou ruim. Ela vai mudar o mundo. É normal haver uma discussão sobre quem paga a conta e quais modelos de negócio serão rentáveis ou não. De qualquer maneira, vale aquela história do Warren Buffett sobre carros e aviões, são máquinas que realmente revolucionaram a forma do ser humano se locomover, entretanto, até hoje, muito poucas são as empresas de aviação comercial rentáveis.

É possível acreditar que a tecnologia é transformadora e, ao mesmo tempo, que não vale a pena investir nela diretamente neste momento. Fique à vontade para entrar em contato e aprofundar a discussão com a gente.